terça-feira, 31 de março de 2020



Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.


Bernardo Soares, heterónimo de Fernando Pessoa





segunda-feira, 30 de março de 2020




A água é boa e o ar é bom.
A carne é terra: também soa,
também sobe às nuvens, certo,

e arde como a chama mais impura.
Porém é terra. E só palavras-terra
me aterram.


Paulo Henriques Britto




sexta-feira, 27 de março de 2020





e se nenhuma porta
se abre para o teu cansaço,
se te é
devolvido a cada passo o peso do teu rosto,
se é tua
esta, mais do que dor,
alegria de continuar sozinha
pelo límpido deserto dos teus montes

aceita então
que és poeta.



Antonia Pozzi




quinta-feira, 26 de março de 2020



Sei bem que não mereço um dia entrar no céu
Mas nem por isso escrevo a minha casa sobre a terra.


Daniel Faria





sábado, 21 de março de 2020





Escrevo nas nuvens.
Tenho um caderno sempre aberto numa nuvem,
e nele escrevo. É nuvem, não papel.

Mas as palavras são de terra. Escrevo terra,
mesmo escrevendo nas nuvens.
Só às palavras-terra me aferro.

Outras sei que são só som:
são ar. E há também as pura tinta
descarnada. Que são água.

A água é boa e o ar é bom.
A carne é terra: também soa,
também sobe às nuvens, certo,

e arde como a chama mais impura.
Porém é terra. E só palavras-terra
me aterram.


Paulo Henriques Britto




quinta-feira, 19 de março de 2020

quarta-feira, 18 de março de 2020




Amanhã
deixaremos de novo para amanhã a vida verdadeira.
Nem nojo de ser, nem pesar de estar vivo:
estranheza de achar-se aqui e agora nesta hora tão muda.
Silêncio neste bosque, nesta casa
no meio do bosque.
Ter-se-á acabado o mundo?


José Emilio Pacheco



terça-feira, 17 de março de 2020





Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.



Alberto Caeiro, 
Heterónimo de Fernando Pessoa




domingo, 15 de março de 2020





Entre o vento e a navalha escolho o vento

Entre verde e vermelho aquele azul
que até na morte servirá de espelho
ao vento que por dentro me deslumbra.
Entre vento e cipreste escolho o Sol
Entre as mãos que se dão a que se oculta
Entre o que nunca soube o que já sobra
Entre a relva um milímetro de bruma




David Mourão-Ferreira





sexta-feira, 13 de março de 2020



Ainda não é o fim 
nem o princípio do mundo 
Calma
é apenas um pouco tarde.


Manuel António Pina








quarta-feira, 11 de março de 2020


A Casa


Deixemos a erva crescer pelos caminhos
e apagar o rasto do viandante cansado.

Tudo o que é belo incita à beleza.

Não dói o olvido, pois em cada gesto mora
a força toda do querer e do desejo
de o fazer perdurar.

De nós depende que o passar do tempo
não apague os sinais que há escritos nas pedras
e que o hóspede anunciado pelos anos
não ache a casa abandonada, escura e triste.


Miquel Martí i Pol




terça-feira, 10 de março de 2020




Acham alguns, o mundo acaba em fogo,
acham alguns, será no gelo.
Pelo sabor que eu desejo e rogo
Estou naqueles a favor do fogo.
Mas se morrer em dobro for meu selo
Penso do ódio já saber bastante
Para dizer aos que preferem gelo
Que ele também garante
O suficiente flagelo.


Robert Frost




segunda-feira, 9 de março de 2020





Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.


Fernando Pessoa







Meu papel é contar o modo do mundo,
como se transforma, depois de tu o olhares.


Mariano Crespo




sábado, 7 de março de 2020



E recolho-me, como ao lar que os outros têm, à casa alheia...


Bernardo Soares, heterónimo de Fernando Pessoa





quinta-feira, 5 de março de 2020



A cada dia a sua descoberta: a luz
acesa pra se ver a côr dos sons.

[
António Barahona,




quarta-feira, 4 de março de 2020



Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa








Legenda

para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.




Carlos de Oliveira





domingo, 1 de março de 2020


Tenho quarenta janelas,
nas paredes do meu quarto,
sem vidros nem bambinelas,
posso ver através delas,
o mundo em que me reparto.(...)
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza,
que inunda de canto a canto.

António Gedeão