quinta-feira, 23 de novembro de 2017





Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras


Manuel António Pina



domingo, 19 de novembro de 2017





Às vezes regressa 

na imóvel calma do dia a recordação 
daquele viver absorto, na luz assombrada. 

Cesare Pavese




sexta-feira, 10 de novembro de 2017





Meus são os dedos que em tumulto

modelam capitéis
de sombra e arestas

Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes


José Tolentino de Mendonça







quinta-feira, 9 de novembro de 2017




Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

José Tolentino de Mendonça









terça-feira, 7 de novembro de 2017





No duelo com certas noites
um coração sai sempre perdedor

Tua voz luzia pelo porto
quase a ponto de perder-se

Não avances tão depressa, minha noite


José Tolentino de Mendonça
in Uma casa no Machico





segunda-feira, 6 de novembro de 2017




a porta
queria que batesses
tomasses um por um os meus refúgios
estes dedos
inquietos na ignorância
do fogo


José Tolentino de Mendonça
in Os dias de Job



domingo, 5 de novembro de 2017





Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio



José Tolentino de Mendonça
in A infância de Herberto Helder





sábado, 4 de novembro de 2017






Aparentes senhores de um barco abandonado, 
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem... 
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado, 
se justifica, enflora, a secreta viagem! 

Agora sei que és tu quem me fora indicada. 
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos. 
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada, 
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos! 

David Mourão-Ferreira, in A Secreta Viagem





sexta-feira, 3 de novembro de 2017





Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido


Ruy Bello




sábado, 28 de outubro de 2017





esperava-te apenas. 

Tu precisavas de mudar de coração 
e de olhar 
depois de tocares a profunda 
zona do mar que meu peito te entregou. 
Precisavas de sair da água 
pura como uma gota erguida 
por uma onda nocturna. 


Pablo Neruda



quinta-feira, 26 de outubro de 2017




E se esta noite é uma noite do destino

bendita seja ela pois é condição da aurora.

Ruy Bello







Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
– que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.


Pedro Tamen





terça-feira, 24 de outubro de 2017




Sobre as águas se recorta a branca escultura 
Quasi oriental quasi marinha 
Da torre aérea e branca
 E a manhã toda aberta 
Se torna irisada e divina

Sophia de Mello Breyner Andersen





segunda-feira, 23 de outubro de 2017





Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo.



António Ramos Rosa