quarta-feira, 13 de dezembro de 2017



                                                        Perdi os meus fantásticos castelos
                                                        Como névoa distante que se esfuma...

                                                        Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: 
                                                        Quebrei as minhas lanças uma a uma! 

                                                                        Florbela Espanca





segunda-feira, 11 de dezembro de 2017





Sim, há fundo.

Mas é o único lugar onde começa o outro lado,
simétrico deste,
talvez este repetido,
talvez este e seu duplo,
talvez este.


Roberto Juarrroz





domingo, 10 de dezembro de 2017




Não haverá uma só coisa que não dê idéia
de uma nuvem. O são as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo renderá. O é a Odisséia,
que muda como o mar. Algo há distinto
cada vez que a abrimos. O reflexo
de teu rosto já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte em outra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também aquilo que está perdido.


Jorge Luis Borges







Os comboios sempre me fizeram sonhar. Os comboios? Quase tudo me faz sonhar, que esquisito. Às vezes parece-me que sou uma nuvem com raízes, sempre a partir e a ficar. Não abandono os sítios de que fui embora, coloquei a alma, escondida, sob cada objecto.

António Lobo Antunes




quarta-feira, 6 de dezembro de 2017




                   Assim é o amor: mortal e navegável. 

                                Eugénio de Andrade 




terça-feira, 5 de dezembro de 2017



Meu desejo corre a ti com velas enfunadas… 
 Podes dar-lhe um porto, sem nenhum receio: 
 ele não traz âncora... 

                                                              Guimarães Rosa 





quarta-feira, 29 de novembro de 2017




a sabedoria da criança é não saber que morre 

a criança morre na adolescência 
Se foste criança diz-me a cor do teu país 
Eu te digo que o meu era da cor do bibe 
e tinha o tamanho de um pau de giz 
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez 
Ainda hoje trago os cheiros no nariz 
Senhor que a minha vida seja permitir a infância 
embora nunca mais eu saiba como ela se diz 

Ruy Belo, in Homem de Palavra[s]










terça-feira, 28 de novembro de 2017




Hereditárias de sol,
elas desabrocham, as palavras, 
um doce fruto escorrendo pela voz,
o rumor leve, adolescente,

o lento fiar do vento
nas suas conchas naufragadas. 


João de Mancelos




sábado, 25 de novembro de 2017




7

Eu não sou eu nem sou o outro, 
Sou qualquer coisa de intermédio: 
    Pilar da ponte de tédio 
    Que vai de mim para o Outro. 

Mário de Sá-Carneiro



quinta-feira, 23 de novembro de 2017





Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras


Manuel António Pina



domingo, 19 de novembro de 2017





Às vezes regressa 

na imóvel calma do dia a recordação 
daquele viver absorto, na luz assombrada. 

Cesare Pavese




sexta-feira, 10 de novembro de 2017





Meus são os dedos que em tumulto

modelam capitéis
de sombra e arestas

Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes


José Tolentino de Mendonça







quinta-feira, 9 de novembro de 2017




Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

José Tolentino de Mendonça









terça-feira, 7 de novembro de 2017





No duelo com certas noites
um coração sai sempre perdedor

Tua voz luzia pelo porto
quase a ponto de perder-se

Não avances tão depressa, minha noite


José Tolentino de Mendonça
in Uma casa no Machico





segunda-feira, 6 de novembro de 2017




a porta
queria que batesses
tomasses um por um os meus refúgios
estes dedos
inquietos na ignorância
do fogo


José Tolentino de Mendonça
in Os dias de Job



domingo, 5 de novembro de 2017





Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio



José Tolentino de Mendonça
in A infância de Herberto Helder