terça-feira, 23 de janeiro de 2018




Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti,
mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber.
Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixão, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo.

Al Berto




domingo, 21 de janeiro de 2018




É um cliché dizer-se que a vida é uma montanha. Sobe-se, alcança-se o topo e depois desce-se. Para mim, a vida é a subir até se ser queimado pelas chamas. A vida é uma realização e cada momento tem  um significado que deve ser tomado. A vida é-nos dada como um pedaço de terra com tudo por fazer. Espero que, quando eu terminar, o meu pedaço de terra seja um lindo jardim. Assim, há muito por fazer.

Jeanne Moreau






sábado, 20 de janeiro de 2018



Dói-nos reter essa luz tensa e clara,
essa alucinação que impõe ao espaço
o medo unânime da sombra
e que pára de súbito
quando notamos como é falsa,
quando acabam os sonhos,
quando sabemos que sonhamos.

Jorge Luis Borges


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018




Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou


José Tolentino de Mendonça



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018




pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados


José Tolentino de Mendonça




terça-feira, 16 de janeiro de 2018




... e vi seus olhares
como versos trepidantes
cavalgar para o fim da noite,
e vi sua ternura destroçada
pela abundância dos que os temem
e em seu temor os fazem grandes.
Vi-lhes na bondade do gesto
a rebeldia de um mundo
que não precisa lei nem ordem para ser justo,...


Uberto Stabile




domingo, 31 de dezembro de 2017



No silêncio da terra. Onde ser é estar.

(...)
o teu corpo
renasce
à flor da terra.
Tudo principia.

António Ramos Rosa 


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017




tenho em mim que havemos sempre de viver
juntos um com o outro
que havemos de selar os nossos destinos
na terra, na água, no ar e no fogo
no fogo que irradias
e que a água vem apagar e não apaga
no ar que nos consome e que nós respiramos os dois juntos


António Gancho




sábado, 23 de dezembro de 2017



Aproxima a boca da nascente:
não te importes
se for silêncio só
o que te chega aos ouvidos:
é música
ainda. Tenta uma vez mais
levantar a mão até ao bafo
da primeira estrela,
a pupila atenta
ao rumor de cada sílaba:
não tens outro país, não tens
outro céu.
Com a boca, com os olhos,
como os dedos
procura tocar a terra cheia
do teu coração.
Outra vez.

Eugénio de Andrade




quarta-feira, 20 de dezembro de 2017





Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância


José Tolentino de Mendonça




terça-feira, 19 de dezembro de 2017



No silêncio da terra. Onde ser é estar.
A sombra se inclina.
Habito dentro da grande pedra de água e sol.
Respiro sem o saber, respiro a terra.
Um intervalo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me, sereno,
flor ou folha sobre folha abrindo-se,
respirando-me, flectindo-me
no interior aberto.
Não sei se principio.
Um rosto se desfaz, um sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumindo em ar.

António Ramos Rosa





sábado, 16 de dezembro de 2017




Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta               [...]

Fernando Pessoa






dói mas mantém-nos vivos
o perfume silvestre da recordação
morder-nos de quando em quando
o coração

Rocío Wittib