domingo, 31 de dezembro de 2017



No silêncio da terra. Onde ser é estar.

(...)
o teu corpo
renasce
à flor da terra.
Tudo principia.

António Ramos Rosa 


sábado, 30 de dezembro de 2017

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017




Mesmo que faça frio

não aproximes do fogo

um coração de neve
José Tolentino Mendonça




segunda-feira, 25 de dezembro de 2017




tenho em mim que havemos sempre de viver
juntos um com o outro
que havemos de selar os nossos destinos
na terra, na água, no ar e no fogo
no fogo que irradias
e que a água vem apagar e não apaga
no ar que nos consome e que nós respiramos os dois juntos


António Gancho




sábado, 23 de dezembro de 2017



Aproxima a boca da nascente:
não te importes
se for silêncio só
o que te chega aos ouvidos:
é música
ainda. Tenta uma vez mais
levantar a mão até ao bafo
da primeira estrela,
a pupila atenta
ao rumor de cada sílaba:
não tens outro país, não tens
outro céu.
Com a boca, com os olhos,
como os dedos
procura tocar a terra cheia
do teu coração.
Outra vez.

Eugénio de Andrade




quarta-feira, 20 de dezembro de 2017





Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância


José Tolentino de Mendonça




terça-feira, 19 de dezembro de 2017



No silêncio da terra. Onde ser é estar.
A sombra se inclina.
Habito dentro da grande pedra de água e sol.
Respiro sem o saber, respiro a terra.
Um intervalo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me, sereno,
flor ou folha sobre folha abrindo-se,
respirando-me, flectindo-me
no interior aberto.
Não sei se principio.
Um rosto se desfaz, um sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumindo em ar.

António Ramos Rosa





sábado, 16 de dezembro de 2017




Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta               [...]

Fernando Pessoa






dói mas mantém-nos vivos
o perfume silvestre da recordação
morder-nos de quando em quando
o coração

Rocío Wittib









quinta-feira, 14 de dezembro de 2017




Na casa defronte de mim e dos meus sonhos, 
Que felicidade há sempre! 

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi. 
São felizes, porque não sou eu. 



Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa








quarta-feira, 13 de dezembro de 2017



                                                        Perdi os meus fantásticos castelos
                                                        Como névoa distante que se esfuma...

                                                        Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: 
                                                        Quebrei as minhas lanças uma a uma! 

                                                                        Florbela Espanca





segunda-feira, 11 de dezembro de 2017





Sim, há fundo.

Mas é o único lugar onde começa o outro lado,
simétrico deste,
talvez este repetido,
talvez este e seu duplo,
talvez este.


Roberto Juarrroz





domingo, 10 de dezembro de 2017




Não haverá uma só coisa que não dê idéia
de uma nuvem. O são as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo renderá. O é a Odisséia,
que muda como o mar. Algo há distinto
cada vez que a abrimos. O reflexo
de teu rosto já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte em outra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também aquilo que está perdido.


Jorge Luis Borges







Os comboios sempre me fizeram sonhar. Os comboios? Quase tudo me faz sonhar, que esquisito. Às vezes parece-me que sou uma nuvem com raízes, sempre a partir e a ficar. Não abandono os sítios de que fui embora, coloquei a alma, escondida, sob cada objecto.

António Lobo Antunes




quarta-feira, 6 de dezembro de 2017




                   Assim é o amor: mortal e navegável. 

                                Eugénio de Andrade 




terça-feira, 5 de dezembro de 2017



Meu desejo corre a ti com velas enfunadas… 
 Podes dar-lhe um porto, sem nenhum receio: 
 ele não traz âncora... 

                                                              Guimarães Rosa 





quarta-feira, 29 de novembro de 2017




a sabedoria da criança é não saber que morre 

a criança morre na adolescência 
Se foste criança diz-me a cor do teu país 
Eu te digo que o meu era da cor do bibe 
e tinha o tamanho de um pau de giz 
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez 
Ainda hoje trago os cheiros no nariz 
Senhor que a minha vida seja permitir a infância 
embora nunca mais eu saiba como ela se diz 

Ruy Belo, in Homem de Palavra[s]










terça-feira, 28 de novembro de 2017




Hereditárias de sol,
elas desabrocham, as palavras, 
um doce fruto escorrendo pela voz,
o rumor leve, adolescente,

o lento fiar do vento
nas suas conchas naufragadas. 


João de Mancelos




sábado, 25 de novembro de 2017




7

Eu não sou eu nem sou o outro, 
Sou qualquer coisa de intermédio: 
    Pilar da ponte de tédio 
    Que vai de mim para o Outro. 

Mário de Sá-Carneiro



quinta-feira, 23 de novembro de 2017





Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras


Manuel António Pina



domingo, 19 de novembro de 2017





Às vezes regressa 

na imóvel calma do dia a recordação 
daquele viver absorto, na luz assombrada. 

Cesare Pavese




sexta-feira, 10 de novembro de 2017





Meus são os dedos que em tumulto

modelam capitéis
de sombra e arestas

Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes


José Tolentino de Mendonça







quinta-feira, 9 de novembro de 2017




Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

José Tolentino de Mendonça









terça-feira, 7 de novembro de 2017





No duelo com certas noites
um coração sai sempre perdedor

Tua voz luzia pelo porto
quase a ponto de perder-se

Não avances tão depressa, minha noite


José Tolentino de Mendonça
in Uma casa no Machico





segunda-feira, 6 de novembro de 2017




a porta
queria que batesses
tomasses um por um os meus refúgios
estes dedos
inquietos na ignorância
do fogo


José Tolentino de Mendonça
in Os dias de Job



domingo, 5 de novembro de 2017





Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio



José Tolentino de Mendonça
in A infância de Herberto Helder





sábado, 4 de novembro de 2017






Aparentes senhores de um barco abandonado, 
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem... 
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado, 
se justifica, enflora, a secreta viagem! 

Agora sei que és tu quem me fora indicada. 
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos. 
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada, 
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos! 

David Mourão-Ferreira, in A Secreta Viagem





sexta-feira, 3 de novembro de 2017





Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido


Ruy Bello




terça-feira, 31 de outubro de 2017