sexta-feira, 1 de setembro de 2017





Durante a primavera inteira aprendo os trevos,
a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço 
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, 
sinto que me falta um girassol,
uma pedra, uma ave, qualquer coisa extraordinária.


Porque não sei como dizer-te sem milagres que 
dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o leite, a mãe, o amor, 
que te procuram.


Herberto Helder




terça-feira, 29 de agosto de 2017




os pequenos incidentes dos dias
não são mais do que dobras e vincos.

poema a poema, passo a alma a ferro. 


João de Mancelos




segunda-feira, 28 de agosto de 2017




Porque continuam os homens a escrever poesia?
E porque continuam outros homens, desrazoavelmente, a escutá-la?

A poesia não tem respostas (às vezes, pobre dela, nem perguntas...), não oferece nada, consolo, não promete coisa nenhuma. É apenas um fio desprovido e solitário, vindo de lugares antiquíssimos dentro dos homens e persistindo obstinadamente no meio da vozearia do comércio e da gritaria dos media. Que haja quem continue à escuta dessa longínqua voz pode significar que talvez haja esperança e que talvez, afinal, não sejamos inteiramente miseráveis.

Manuel António Pina, in Por outras palavras




segunda-feira, 17 de julho de 2017




O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

António Gedeão




segunda-feira, 10 de julho de 2017





Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.


Herberto Helder





segunda-feira, 26 de junho de 2017




Estou aqui para te amar, para te segurar nos meus braços, para te proteger. Estou aqui para aprender contigo e para receber o teu amor em troca. Estou aqui porque não existe outro sítio onde possa estar.

(As palavras que nunca te direi)








sábado, 24 de junho de 2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017




Segue o corpo
Dá-lhe pousio e esgotamento.


João Almeida








Nas paredes devolutas, encontraste pássaros,
grinaldas frias, versos sem dono
nem sentido. Perto, ou muito longe,
três velas teimavam em iluminar-te os passos.
O cravo, azul, veio ao nosso desencontro.
Mas era de papel, embora rubro;
não nos podia salvar de sermos nós.

A festa, a única que me interessa, é o teu nome.


Manuel de Freitas










E de súbito desaba o silêncio.

É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.



Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.


Eugénio de Andrade, Sem ti







Ninguém chama por mim
Nem chamo por ninguém.
Instante calmo e triste...
Como a vida está longe!

Luís Amaro








Vago sabor de outono
E de coisas extintas.
Nem desejos nem dor...
Meu coração esquece.

Luis Amaro




terça-feira, 20 de junho de 2017